Este não é um texto sobre transição de carreira
Imagine um profissional que atua numa área específica há mais de 20 anos que, movido(a) pela necessidade de aumentar a renda familiar, decide ingressar num curso superior com a certeza de que essa ação tem o potencial de alavancar sua carreira.

Foto de Saksham Choudhary: https://www.pexels.com/pt-br/foto/homem-segurando-um-laptop-com-as-duas-maos-2036656/
Imagine um profissional que atua numa área específica há mais de 20 anos que, movido(a) pela necessidade de aumentar a renda familiar, decide ingressar num curso superior com a certeza de que essa ação tem o potencial de alavancar sua carreira.
Toda a família está alinhada com ele nesse propósito e, juntos, fazem todos os ajustes necessários para realização desse projeto.
Canudo na mão, peregrinação universitária concluída, é hora de ingressar no mercado de trabalho. Sem (ou com) muita dificuldade, ele consegue um cargo de desenvolvedor back-end júnior em uma empresa que presta serviço para grandes instituições financeiras.
No dia a dia ele rala muito: 8 a 10 horas de trabalho por dia (num dia suave), horário de almoço reduzido para dar conta dos projetos, isso quando não precisa dormir no chão da sala, pois tem uma melhoria rodando que precisa do máximo de supervisão possível.
Enfim, apesar das conquistas, ele está exausto... considerando a realidade do mercado, penso que ele sofre certos abusos por parte dos superiores. Essa é a rotina diária dele. Todos os dias seguem assim, embora ainda exista uma aura de empolgação com o que poderia ser o início de uma guinada.
Até que um dia ele é abordado por alguém. É uma pessoa desconhecida, mas ela tem informações detalhadas sobre nosso personagem e sobre sua vida profissional. Ela sabe até que as credenciais dele possui amplos poderes e permitem o seu acesso aos mais variados níveis dos sistemas e, sabendo de tudo isso, propõe um acordo que garantirá certo ganho financeiro.
O que ele deveria fazer para ganhar a contrapartida? Conceder sua credencial de acesso (login e senha), criação de conta em uma plataforma para receber orientações, executar alguns comandos e manter o acesso ativo. O retorno? Um primeiro pagamento no valor de R$ 5.000,00 e outro de R$ 10.000,00 ambos em dinheiro vivo.
"Não vai dar nada" — ele pensa.
Acordo aceito.
O resultado dessa ação: um ataque hacker que desviou R$ 541 milhões das contas-reserva de uma instituição de pagamentos que afetou ao menos seis bancos.
Como o título do post afirma, este não é um texto sobre transição de carreira. É sobre segurança da informação, sobre riscos, e sobre ameaças internas ou, pra quem prefere o anglicismo, as insider threats.
De acordo com a IBM as insider threats são ameaças de cibersegurança originadas em usuários autorizados, como funcionários, prestadores de serviços e parceiros de negócios. Essas pessoas, de modo intencional ou acidental, fazem mal uso de seu acesso legítimo ou têm suas contas sequestradas por cibercriminosos.
Embora ocorram em menos número quando comparadas às ameaças externas, as insider threats apresentam elevado custo às organizações.
A título de exemplo, o Relatório Global Sobre o Custo das Ameaças Internas de 2020, elaborado pelo Ponemon Institute em parceria com a IBM e a ObserveIT, avaliou 204 organizações e identificou a ocorrência de 4.716 incidentes internos. Desse total, 62% dos incidentes estão relacionados a negligência, 23% deles são relacionados a crimes cibernéticos cometidos internamente e 14% relacionados a roubo de credenciais.

2020 COST OF INSIDER THREATS GLOBAL REPORT
O custo médio total das ameaças internas naquele ano foi de US$ 11,45 milhões.
No relatório de 2025, os números aumentaram consideravelmente. O número total de organizações que experimentaram um ou mais incidentes internos foi de 349 e foram identificados 7,868 incidentes internos (uma média de 23 incidentes por organização).

COST OF INSIDER RISKS - GLOBAL REPORT 2025
O custo médio total subiu para US$ 17,4 milhões.
Situações como a que foi narrada no início do texto ocorrem com frequência e representam um custo que muitas empresas não têm capacidade de suportar.
No entanto, os riscos das ameaças internas podem ser reduzidos a quase eliminação. De acordo com a versão mais recente do relatório do Ponemon Institute, a detecção precoce dos riscos internos é fundamental para evitar violações e proteger a integridade da reputação organizacional.
Essa detecção precoce pode acontecer a partir da consolidação da tecnologia por meio do uso de ferramentas de prevenção à perda de dados, análise de comportamento de usuário e monitoramento estratégico.
Além disso, o relatório destaca a necessidade das organizações investirem no empoderamento dos seus analistas, não só fornecendo ferramentas para acelerar investigações, mas (aqui é um acréscimo feito por mim) também na capacitação por meio de treinamentos, simulações de incidentes de segurança etc.
Por fim, o relatório sustenta a necessidade de cada organização manter o radar ligado no que diz respeito aos incidentes noticiados nas mídias. Estar atento aos acontecimentos que são amplamente noticiados é uma atitude que entrega subsídios para a defesa da tomada de atitudes proativas, direcionamento adequado do orçamento, o que gera valor futuro.
Concluindo, o foco deve estar na prevenção e detecção precoce, por meio de tecnologias mais inteligentes, desenvolvimento de políticas robustas de segurança da informação e proteção de dados.
Agir de maneira preventiva e estratégica, além de criar uma cultura sólida de segurança, prepara as organizações para atuar adequadamente em situações adversas, fortalece o valor e a reputação dos negócios.
Recados da paróquia
Primeiro, quero agradecer a cada leitor por acompanhar a newsletter.
Por aqui, estamos em processo de mudança de casa (a segunda em menos de 6 meses) e a constância na produção de conteúdo caiu bastante. Aos poucos, estamos retomando o rumo.
Então, peço paciência pelos espaços entre um texto e outro. Peço, também, que vocês continuem comigo, acompanhando os posts.